Script

Acordei, assustada, certa noite. Eram os olhos mais fascinantes, que eu já vi. Eram grandes, expressivos, e com um tom de azul, que lembrava o céu no seus extremos. Eram três e quarenta sete da manhã, e sono não havia mais. Como poderia perder o sono, por causa daqueles olhos, que invadiram minha mente, durante a noite e penetraram em meu coração, fazendo-o bater como uma bateria de escola de samba?

Virava para o lado, no intuito de pensar em outras coisas ao fechar os olhos. Mas não conseguia.  Era como se fosse uma foto, por dentro das minhas pálpebras. Comecei a pensar se aqueles olhos, realmente, existiam e se existiam, onde estavam aquela hora, da madrugada. Dormindo? Festejando? Morrendo? Um zilhão de perguntas me tomaram a essa altura, mas uma me fez pensar até o Sol amanhecer: será que os mesmos olhos azuis, viram os meus olhos castanhos, em seus sonhos, essa noite? Não seria possível. Era apenas a minha imaginação, um amigo ou um namorado imaginário, que minha mente me deu de presente naquela noite. Só isso!  Mas eu tinha uma certa dúvida.

Quando olhei para o relógio, já eram sete e meia da manhã e estava na hora de levantar. Eu trabalhava em um café, no centro da cidade. Era um café grande, bem movimentado e muito bem frequentado. Tive um namorado, na época da escola, que sempre me levava lá. Adorava passar as tardes conversando com ele,  rindo dos pés que passavam na calçada. Eu amava aquele mundo, que ele havia criado para mim. Mas acho que ele não gostava muito… Então nos separamos e passado uns dois meses, comecei a trabalhar naquele café. Confesso que no começo, eu estava ali apenas para recordar, as boas lembranças que tinha dele, mas agora a situação era outra: necessidade.

Pelo grande ato de arrumar-se (tomar banho, secar o cabelo, maquiagem, colocar o uniforme) acabei-me esquecendo daqueles olhos. Fazia o trajeto de casa para o trabalho, andando. Observar os sapatos das pessoas, os cabelos esvoaçantes das mulheres e as gravatas engraçadas dos homens, acabava me distraindo. Tudo não dura mais do que vinte minutos.

Nesse dia, cheguei atrasada. Mas por sorte, o café estava com pouco movimento, aquela manhã. Então comecei a arrumar o lugar. As mesas, que eram inspiradas nos cafés americanos, os canudos no balcão, limpar o chão… Realmente, naquela manhã, estava tudo meio morto, demais.

Depois do meio-dia, começou um movimento, mas foi às três e quarenta e sete, daquela tarde, que tudo aconteceu. Estava na máquina de café, preparando um latte, quando ele entrou. Barba, cabelos nem curtos e nem muito compridos, no meio termo. Sorriso largo, pescoço comprido. Franzi a testa, como se estivesse forçando a mente, para lembrar-me da onde eu conhecia aquele estranho familiar, que acabara de entrar. Não conseguia lembrar, também não conseguia parar de olhar –café transbordando pela xícara e queimando minha mão. Fiz um movimento com a mão, igual quando alguém está com a mão ensopada de água ou algum líquido, faz. Limpei a porcalhada que havia feito e levei o latte. E foram aqueles metros que separam, a mesa do cliente e o meu posto (atrás do balcão), que algo fantástico aconteceu. Enquanto eu voltava para o balcão, senti uma pessoa cutucar meu ombro, dizendo “moça!”. Com o canto dos olhos, enxerguei uma mão e vagarosamente, virei a cabeça. Nesse momento, meus músculos paralisaram. Minha respiração ficou ofegante e meu coração bateu mais forte, do que naquela madrugada.

– Os olhos!  -falei olhando fixamente, para eles.

O café estava cheio, nessa hora, mas parecia que só havia nós, no meio do salão. Senti que ele também ficou com a mesma sensação que eu. Era estranho, pois senti sua respiração ofegante, e não precisei me aproximar para sentir seu coração, pulando dentro de seu peito. Era como se o destino, tivesse me avisado naquela noite, que meu dia mudaria do nada como mudou, com a entrada daquele moço no café.

Percebi que seus músculos, também ficaram paralisados, como os meus. Mas vagarosamente, levantou as mãos. E as mesmas, que antes  estavam paralisadas, agora estavam em meus cabelos.

– Estranho! -falou passando a língua pelos lábios. Seus olhos! Sonhei com eles, essa noite. Você pode me achar um louco, mas eram eles  -fez uma pausa- aliás, é você a menina com quem eu venho sonhando, há alguns dias.  –passando as mãos em meu rosto, continuou- E eu achando que era só a minha imaginação. Fiquei com a sua fisionomia durante dias, em minha mente. Não consigo acreditar, que você é real!

– Eu também, não consigo acreditar, que você é real. -falei abaixando a cabeça.

– Como assim?

– É inacreditável, mas eu sonhei com seus olhos essa noite também. Até perdi o sono, pensando neles. Como é possível isso? Lembro que no sonho, eu sentia uma coisa muito forte por você, mas você me deixava e eu não sabia o porquê.

– Já no meu, era você quem me deixava. Eu corria para te alcançar, mas você sumia no meio de uma nevoa.  Mas agora, eu consegui te achar.  –escancarou um sorriso largo para mim.

Ele me puxou para perto e me beijou. Nos beijamos. Eu e e aquele par de olhos azuis, que me consumiu a noite toda.

Todos no café, bateram palmas para a nossa cena. E batem palmas até hoje, quando no meio do expediente  aquele moço chega com um buquê de rosas vermelhas, para mim e se declara no meio de todos. Ele diz que ainda vive aquele sonho, que um dia nos uniu. Foi como se estivesse escrito, num script.

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