O acaso

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Quarta-feira, São Paulo, cinco e cinquenta e cinco da tarde, a cidade congestionada. Entre mim passa uma velha segurando um poodle nos braços e me lança um olhar enfurecido -pobre cãozinho-, e eu abaixo o olhar. Ao meu lado, uma garota com idade entre dezoito e vinte dois anos, se contempla no espelhinho de seu pó compacto quebrado. Há texturas e cores demais em seu rosto que acaba deixando-o desarmônico e trágico. Faço uma nota mental: nunca compre maquiagens sem antes experimentar. À minha frente, um rapaz que, a cada cinco minutos, me olha. Ele segura um celular em uma das mãos. Nas costas, uma mochila pesada disputa espaço em seu corpo com uma jaqueta jeans -que ficaria ótima em mim, por sinal- e um rosto assustadoramente, simétrico: olhos grandes e expressivos, as narinas perfeitamente iguais e lábios tão carnudos que me fazem lembrar um dos meus atores favoritos. Nem uma obra de Van Gogh seria tão valiosa quanto esse rosto. Volto minha atenção ao cimento esburacado da calçada, quando consigo sentir uma pessoa aproximando-se. Mas interrompida por algo que abruptamente pula em meu colo, eu volto para a minha consciência. A cidade atrás, dos lados e a minha frente não para, assim como a velha embravecida que passara minutos antes por mim. Aquilo que pulara em mim, era sua bola de pêlos encrespada que agora lambia todo meu rosto e me fazia rir. A velha apenas pegou seu cachorrinho sem mencionar uma só palavra. Apenas com uma expressão, me fez sentir como se eu fosse uma adolescente que ri estridentemente, para chamar a atenção. Eu não era assim. De dentro da bolsa, tirei meu celular e meus fones de ouvido. Meus pensamentos gritavam e eu não podia mais ouvir aquilo, não merecia ouvir, não queria ouvir. Antes que pudesse colocar os fones no ouvido, a menina ao meu lado levantou-se deixando seu lugar vago para o rapaz à minha frente. “Someway baby it’s part of me, apart from me.” – as ondas sonoras invadiam meus ouvidos e mente. Justin Vernon me entorpecia. Holocene fazia minha mente dançar em meio a todo caos da cidade e percebi que o barulho do trânsito ficara mais alto. Olhei para o lado, o rapaz que parecia ter saído de um anúncio da Burberry, estava olhando fixamente pra mim e no seu ouvido direito, o fone que deveria estar no meu ouvido esquerdo.

Anoiteceu, passaram dois, três ônibus por nós. A cidade perdia o ritmo frenético dos carros e das pessoas. E longe, as primeiras luzes nos prédios indicavam que logo uma tranquilidade se estabeleceria na região. As horas passaram e ficamos apenas um ao lado do outro, entre nós apenas a voz suave e analgésica de Justin. Quando a última nota foi tocada, o rapaz tirou o fone do ouvido e o colocou em meu colo. Ele pegou minha mão e logo um número estava escrito em meu braço direito. Sem dizer nada, apenas com um sorriso nos lábios, ele levantou e seguiu em direção oposta ao tráfego. Eu o segui com o olhar, até o perder de vista quando dobrou a esquina. O acaso me pregara uma peça, e de quebra, me deu alguns números que poderiam ser a minha loteria. O medo não me acompanhou durante aqueles minutos à espera do próximo ônibus. Segui para casa, aos olhos prédios e casas passavam correndo, à mente os números em meu braço. Uma fina garoa caía quando cheguei no ponto final. Meu apartamento ficava do outro lado da rua. Protegi a tinta da caneta, como se carregasse um diamante. Passei horas olhando para eles, sentada no sofá, apenas de sutiã, calça jeans e uma taça de vinho tinto. Os números pareciam brilhar sob minha pele, meu coração palpitava fortemente. Do gosto doce do vinho, vinha o gosto daqueles números. Mas nada o fiz. Depois daquela noite, eu não me atrevi a discá-los. A última vez que isso aconteceu, uma pessoa furiosa me disse coisas que fizeram minha vida mudar, e talvez, eu não estivesse pronta para enfrentar tudo aquilo novamente.

Era uma manhã fria e uma fina garoa voltava a cair sobre a cidade cinza. Ainda havia lugares vagos no vagão do metrô. Era feriado e a cidade beirava a calmaria. Novamente eu estava envolta as melodias de Bon Iver, a cabeça encostada no vidro da janela e a paisagem lá fora, passava correndo sobre mim. Percebi uma sombra aproximando e um corpo sentando no banco em frente ao meu. Desviei o olhar para a frente e lá estava o mesmo sorriso de dias atrás. Ele me olhava fixamente e aproximou-se devagar, pegando os fones do meu ouvido e colocando nos seus. “I told you to be patient, I told you to be fine…” -ele cantava os versos da música, simultaneamente a mim. Sem desviar o olhar, ele sentou no lugar vago ao meu lado, me virei para ele. Meu coração batia forte, eu suava. Ele tirou os fones suavemente dos ouvidos e colocou-os sobre as minhas mãos, que estavam com as palmas para cima sobre minhas coxas. Nesse momento, passei a olhar outra vez para frente, tentando controlar o que sentia. Senti sua mão na lateral do meu rosto, virando-o em sua direção. Era ardente, envolvente e doce como o vinho daquela noite, de dias atrás. Abri os olhos e olhei à minha volta: o vagão estava completamente, vazio e uma voz anunciava pelos alto falantes do metrô, que minha parada era a próxima estação. Minha mente está a milhão, estava acontecendo de novo. Assim que o metrô parou, sai correndo a procura de um lugar para me esconder. Eu estava atordoada, minha cabeça não parava, tudo estava acontecendo de novo, de novo, de novo… eu estava enlouquecendo. Me encostei num canto afastado das pessoas que passavam depressa pela estação. Me desfiz em lágrimas, dor e insanidade. Tudo de novo não!

Esfregando as mãos nos olhos, segui para as escadarias que levavam as pessoas aos seus destinos. Observei uma senhora com uma criança loira no colo, subir pela escada rolante que estava lotada, a criança riu para mim. O moço a minha frente usava coque nos cabelos compridos e vestia uma camiseta do Che Guevara, nada cult, apenas mais um produto da nossa indústria cultural. Então me ocorreu um pensamento: essa seria a  realidade ou era apenas mais uma projeção da minha mente sacana? Passei correndo pelas pessoas à minha frente. O moço da camiseta do Che me xingou e eu apenas olhei para a camiseta dele. Saí da estação com os pensamentos mais confusos do que antes. Dobrei uma, duas, três esquinas até passar por uma porta que tinha na frente uma placa que convidando os pedestres para uma exposição de fotos de um fotógrafo da cidade. Não hesitei e entrei. Era tudo tão claro e branco. Fiquei fascinada com toda àquele beleza que acabei me livrando de toda a confusão interior. Uma foto me chamou mais à atenção. Era uma cabana numa montanha, e quando dei por mim, estava cantando “come on skinny love just last the year”. Sem que eu pudesse cantar os próximos versos, aquela voz completou a música. A voz, aquele sorriso largo, os olhos expressivos… Oh, meu Deus!

Por: Luana Christal. xoxo

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The red velvet

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Sinto como se pudesse me embebedar toda vez que te vejo. Os olhos obedecem aos seus movimentos. As mãos, sem jeito, encontram o peito.
Mergulhada em vermelho, me vejo indo cada vez mais fundo, afundando e afundando.
Mãos se estendem e me puxam de volta a realidade. Volto para o momento em que avisto um sorriso largo, vindo em minha direção.
Assim, seguro meu coração com uma das mãos e bebo com voracidade todo aquele líquido vermelho paixão. Devolvo ele ao lugar em que deve habitar, e ali, quentinho, ele bate oscilando a cada olhar encontrado. Me sinto viva, cada dia mais!

 

xx Luana c 

A redoma de vidro

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                        Estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado.

Hoje eu resolvi deixar de lado os textos, para falar de um livro que me encantou: A redoma de vidro. Conheci a autora Sylvia Plath, através da página @itssylviaplath (sim, eu a conheci em uma página no twitter), que publica trechos de seus poemas e até mesmo desse livro.

A redoma de vidro foi o único romance escrito por Sylvia, e lançado semanas antes de sua morte. Ela sofria de uma profunda depressão e boa parte do livro, são referências autobiográficas como quando a protagonista da história, Esther Greenwood, vai parar numa clínica psiquiátrica.  O livro começa falando dos anseios e desejos que Esther tinha para a sua vida, mas que ao longo de um mês que ela passa trabalhando em Nova York, se vê totalmente desmotivada e perdida. É nesse momento que ela percebe que nada mais era como antes. Sem conseguir ler, comer e escrever, Esther começa a se sentir cada vez mais distante de si e com a ajuda de sua mãe, procura ajuda médica. Entre clínicas e tentativas de suicídios, Esther vai se fechando e cada vez mais sendo sugada pela redoma de vidro em que se encontra.

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Não quero dar muitooos detalhes, porquê eu acabaria contando o livro todo haha; Lendo o pequeno resumo que eu fiz, vocês podem pensar: “mas que história mais deprimente e triste”. Em certos pontos da história, ela é sim bem deprimente e triste, mas é uma ótima reflexão. Quantas vezes, não nos sentimos perdidos e desmotivados? Sozinhos? Tristes?

O que posso dizer é que Sylvia acertou em nos deixar como um último presente, um pedaço tão emocionante de sua história. Um livro denso e pesado, mas com uma história verdadeira e profunda, “A redoma de vidro” tornou-se um dos meus livros preferidos e que eu recomendo para todo mundo. Portanto: LEIAM!!! haha

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Mas, e se o tempo parasse?

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Me perco e me encontro, nas voltas que a vida dá. Seria mais fácil se não as desse. Ficaria estagnada no momento, e não sofreria por alguma vírgula dita fora de contexto. Me sentiria segura por mais tempo.

Lidaria melhor com os sentimentos e sensações, que me atormentam a todo tempo. Ficaria feliz pela chuva que cai.

A alma então ficaria leve e voaria por todos os lugares, em busca de novas experiências e aventuras. Viveria mais, amaria mais.

Mas os mesmos dias que vão, voltam e me fazem abrir os olhos.

#PHpoemaday Desafio 9: a loucura

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Desenhava no chão de terra batida, pequenas estrelas que teimava em querer pegar.
Gritava ao vento, o nome das flores que gostaria de ser e ele me devolvia um sopro gelado no rosto.
Adormecia sob o céu, no gramado de casa, pensando em quantos planetas poderia visitar. Acordava com as lambidas de “Bita” no rosto.
Com os fones de ouvido, viajava para as galáxias que tanto queria conquistar.
Mas as vozes dentro da minha cabeça, não desligavam por mais que eu me esforçasse.
Em meios a gritos e xingamentos, me via cada vez mais distante do meu mundo. Do mundo que eu queria.
Conquistar a Lua já não me parecia alcançável.
As vozes, cada vez mais agonizantes, acabaram por me vencer. Me vi num precipício de desespero e desilusão.
Acabei tomando uma decisão. Uma decisão que julguei ser certa: do prédio mais alto, deixaria os sorrisos, os sonhos e a vida que um dia me fizeram felizes e partiria rumo a derrota. Dali, bem no para-peito do prédio central.
Mas quando estava quase alcançando o ápice da minha loucura, uma mão me puxou. Olhei para trás e vi um rosto familiar: era a lucidez.

Desafio 9: a loucura                                                             

                                                                        xx Luana c.

E se…

E se nos encontrássemos entre as ruas da cidade, você reconheceria meu rosto novamente? Ou se estivéssemos no parque, livremente em cima de uma bicicleta, com o vento sobrando em nossos rostos, cabelos esvoaçantes, desviando das pessoas a nossa frente, você reconheceria meus olhos novamente? E se nos conhecêssemos de novo, naquela loja de discos velhos e usados, com o cheiro de mofo invadindo nossas narinas e o som da mesma canção penetrando em nossos  tímpanos e chegando ao cérebro, você reconheceria minha voz novamente? Se os anos não estivessem sido tão cruéis conosco, você ainda estaria deitado no meu sofá, numa tarde de domingo, com a barba para fazer? Mas se eu não tivesse sido tão rude, você ainda faria as mesmas coisas, que fez para me ver feliz? Estaria do meu lado, como quando cortei o dedo preparando nosso jantar, ou quando cortei meu cabelo igual ao teu?

Costumávamos, na maior parte do tempo, rir do vento que invadia a sala de estar e espalhava nossas fotos sobre a mesa. Gostávamos de ficar acordados até tarde, com meia luz no quarto. Era assim que nos abríamos um com o outro…

Mas o tempo foi gastando nossa amizade. Era como se centenas de serpentes nos rondassem a todo tempo. Era preciso tomar cuidado para não entrar em nenhum labirinto secreto, da nossa sala de estar. As palavras que antes curavam, agora doíam mais que dezenas de facas entrando por todo seu corpo, e te matando aos poucos. Mas o silêncio foi crucial. Foi ele quem calou nosso amor de vez.

Daí me pergunto: se você ainda estivesse aqui, como eu estaria? Feliz, triste, alegre, deprimida, eufórica, tensa, solitária… Ai me vem outras perguntas: e se nos conhecêssemos novamente, escreveríamos a mesma história ou mudaríamos algum ponto final, ou colocaríamos uma vírgula em outro lugar? E se o final não fosse o final, teríamos uma nova chance e você reconheceria os meus sentimentos, novamente? E se a culpa fosse minha, você voltaria a viver na nossa montanha-russa particular, sem pensar o que os outros acham sobre isso? Você estaria aqui novamente? E se eu cantasse para você, você deitaria no meu colo chorando como fez centenas de vezes? Você saberia me amar, como amou? Mudaria seu nome, para que pudéssemos fugir para um lugar onde pudéssemos infringir todas as leis, só para estarmos mais perto do céu? E se eu fosse a princesa que você tanto queria, você estaria me esperando em cima de um cavalo branco, na porta de casa? E se… E se eu dissesse que ainda te amo, você tocaria a campainha, como está fazendo?

Colhi flores pelo caminho

 

large (10)     Durante muito tempo, eu passeava por caminhos onde não haviam  flores. Foram tempos dificeís. Minha  mente era bombardeada por  milhões de   pensamentos -bons e ruins – e tudo parecia não dar certo.  Parecia  que eu estava jogada num canto, sem nenhuma vela a me  iluminar. Vivia nas melodias melancólicas, dos meus  artistas favoritos, com medo daquele frio nunca passar. E por mais escuro que fosse, por mais que as olheiras fossem fundas e meus olhos afundassem nelas, havia esperança. Esperança que me invadia e me fazia acreditar que bons ventos trariam as boas novas, assim, sem avisar, sem mandar um recadinho básico dizendo: “olha só, tô chegando na sua vida, viu?”. E foi assim que aconteceu. Minha vida floreceu. A felicidade se instalou aqui dentro, do meu peitinho -agora- quentinho e resolveu passar uma temporada por aqui. Tá sendo tão bom, que o medo de pertercer a tristeza, uma vez entoada nas minhas músicas favoritas, desapareceu. Ainda há muito medo -muito mesmo-, mas com o tempo tudo vai passar e aquilo que hoje me paralisa, amanhã me fará encarar as coisas e situações com naturalidade.

Acredite nos dias melhores. Acredite no tempo ao tempo. Acreditar, essa é a chave de tudo!